Cinquenta e seis dias se passaram desde que Luther havia sido trancado na prisão. E mesmo depois de todo esse tempo, o jovem ainda mantinha a esperança de que um dia iria conhecer seu verdadeiro pai, pois precisava cumprimir a promessa que fez à sua mãe antes que ela o deixasse sozinho nesse mundo.
Ali, trancado em meio a sujeira e podridão de uma cela, Luther passou os dias se lembrando de quando ainda era uma criança e das coisas que aprendeu com sua mãe. Teve uma infância bastante solitária, talvez por morar numa cabana velha bem no meio de um bosque selvagem, ou por algum outro motivo que desconhecia. Sua mãe nunca deixava as pessoas se aproximarem da casa e assim ninguém nunca conheceu seu filho, mas isso tudo nunca fez muito sentido para Luther, que pouco se importava em ter amigos ou não, pra ele bastava que sua mãe estivesse ali, presente ao seu lado. Mas um dia essa paz acabou.
Uma terrível doença tomou conta de sua mãe. A fisionomia jovem deu lugar a uma horrenda afeição e fortes dores a faziam gritar durante várias horas do dia e da noite. Luther assumiu os cuidados com os animais que criavam, com as plantas da pequena horta e os afazeres de casa, e também foi responsável por tratar da própria mãe. Como não havia tratamento adequado (ou mesmo que houvesse), poucos dias depois sua mãe veio a falecer em seus braços. E foi nos últimos suspiros que ela pediu para ele ir em busca do pai nas Montanhas de Gelo, ao Norte.
Sem conhecer outro lugar, que não fosse o quintal de casa, Luther juntou suas coisas (nada além de uma bolsa com frutas, duas moedas de prata e uma faca de pão) e partiu em direção às montanhas que avistava ao longe, via apenas a silhueta esfumaçada dos altos picos e podia imaginar que a caminhada até lá seria muito demorada, e perigosa também.
Ainda no primeiro dia de sua jornada, avistou do alto de uma ladeira, muitas casas e dezenas de pessoas circulando por entre ruas e becos. Como já era inicio de noite, pensou que talvez pudesse conseguir abrigo e rumou em direção à cidade. A cada passo que dava, Luther se sentia em um mundo completamento novo. Para ele, tudo era extremamente diferente do que conhecia, até mesmo as história que ouvia da mãe não chegam perto daquilo que vislumbrava pessoalmente. Bastante confuso e perdido, tentou falar com algumas pessoas, mas todas elas passavam rápido demais, montadas em cavalos ou carregadas por belas carroça de madeira e ferro. Numa dessas tentativas, quase caiu e por sorte (ou azar) notou uma porta entre aberta de uma das casas próximas à ele. Foi até lá e entrou. Ao abrir a porta, viu uma cozinha cheia de carne sobre a mesa, grandes cestas de frutas e uma bandeja com pão quentinho. Não resistiu à fome que sentia e tão logo pegou um dos pães, a porta do outro lado se abriu subitamente e um homem grande e gordo vestido de branco gritou para Luther - Ladrão!
Antes mesmo que pudesse reagir, um outro sujeito o agarrou por trás e o imobilizou rapidamente. Dali em diante tudo aconteceu tão depressa que a cabeça de Luther não foi capaz de compreender. Em poucos instante ele estava sendo atirado dentro da cela imunda. Uns homens com roupas iguais discutiam do lado de fora da cela, mas o jovem era incapaz de entender o que estava acontecendo e reagir, estava em estado de choque. Demorou alguns dias para ele então compreender que estava preso e sem ninguém, já não tinha mais sua mãe nem sua liberdade.
